Polipose Adenomatosa Familiar: a clássica síndrome oncogenética
O que é Polipose Adenomatosa Familiar (PAF) 🧬
A PAF é uma condição genética rara causada por uma mutação no gene APC (do inglês, "Adenomatous Polyposis Coli"), que regula o crescimento das células do intestino. Pessoas com esta condição desenvolvem centenas a milhares de pólipos no cólon e reto desde a infância ou adolescência, com alto risco de malignização.
Herança genética e risco para familiares
- A PAF é transmitida como herança autossômica dominante, ou seja, basta um dos pais ter a doença para a criança ter 50% de chance de herdá-la. Além disso, a doença possui uma penetrância alta, o que quer dizer que, se você possui a variante patogênica, a chance de apresentar a doença é alta.
- Em cerca de 25% a 30% dos casos, a mutação ocorre de modo espontâneo (não-herdada, ou, como chamamos no jargão médico, "de novo").
- Existe uma forma mais leve chamada PAF atenuada (AFAP), com menos pĂłlipos e inĂcio mais tardio.
Como a PAF se manifesta
- Atinge o cólon e reto, com crescimento de muitos pólipos a partir da adolescência; sem tratamento, quase todos evoluem para câncer até os 40–50 anos.
- AlĂ©m disso, pĂłlipos podem surgir no duodeno, estĂ´mago, fĂgado e garganta.
- Acometimentos fora do intestino incluem:
- Tumores desmoides (nĂŁo cancerĂgenos, mas podem ser volumosos),
- Osteomas (crescimento Ăłsseo benigno),
- Cistos de pele e adrenal,
- Alterações dentárias ou na retina (manchas oculares chamadas CHRPE).
- Quando essas alterações aparecem junto com a PAF, chamamos de sĂndrome de Gardner, uma variante da doença que associa pĂłlipos intestinais a tumores desmĂłides, osteomas, alterações dentárias e lesões cutâneas.
Além da PAF clássica e da forma atenuada, existe uma variante chamada GAPPS (do inglês, traduzido como "adenocarcinoma gástrico e polipose proximal do estômago").
- Nela, os pĂłlipos aparecem principalmente no estĂ´mago, especialmente na regiĂŁo proximal, e nĂŁo no cĂłlon.
- É mais rara e também tem origem genética, envolvendo mutações diferentes do mesmo gene, o APC.
- O risco maior Ă© para câncer gástrico, exigindo estratĂ©gias especĂficas de rastreamento e, em alguns casos, cirurgia preventiva.
Sintomas possĂveis
Nas primeiras fases, muitos nĂŁo apresentam sintomas. Com o tempo surgem:
- Sangramento nas fezes,
- Mudanças de hábito intestinal (diarreia ou constipação),
- Cansaço e anemia,
- Dores abdominais ou perda de peso.
DiagnĂłstico
- Colonoscopia: exame visual do intestino para detectar e remover pĂłlipos.
- Teste genético: para confirmar a mutação APC, sendo importante testar familiares de primeiro grau (pais, irmãos e filhos)
- O rastreio começa geralmente entre os 10–12 anos para formas clássicas, e mais tarde (18–20 anos) na forma atenuada.
Risco de câncer
- Sem remoção do cólon, o risco de desenvolver câncer colorretal chega a PRATICAMENTE 100% até os 50 anos na forma clássica.
- Na forma atenuada, esse risco é de cerca de 70–80%, surgindo mais tardiamente (por volta dos 55–60 anos).
Prevenção e tratamento
Vigilância endoscópica frequente
- Colonoscopia anual a partir dos 10 anos na forma clássica,
- A cada 1–2 anos na forma atenuada.
Cirurgia preventiva (colectomia)
- Indicada entre os 16 e 20 anos ou assim que detectados muitos pólipos ou lesões com grau alto de displasia.
Tipos de cirurgia: Colectomia total + anastomose ileorretal — preserva o reto OU Proctocolectomia (restauradora) — remove reto + cria bolsa ileal,
(Ambas as abordagens tĂŞm bons resultados; escolha depende da gravidade dos pĂłlipos, sintomas e preferĂŞncia. )
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Acompanhamento constante
- Mesmo após a cirurgia, é necessário monitorar o reto remanescente ou bolsa ileal regularmente.
Rastreamento do trato gastrointestinal superior
- Endoscopias do estômago e duodeno, devido ao risco de câncer nesses locais.
Quimioprevenção
- Pesquisas estĂŁo avaliando drogas que possam reduzir o nĂşmero de pĂłlipos, mas ainda nĂŁo sĂŁo recomendadas rotineiramente e devem ser discutidas caso a caso.
Por que o diagnĂłstico precoce Ă© importante
O acompanhamento cedo permite:
- Evitar a evolução para câncer ou diagnosticá-lo o mais cedo possĂvel.
- Planejar cirurgias com melhores resultados e qualidade de vida.
- Monitorar e tratar condições associadas com tranquilidade.
Em resumo 👍
- PAF Ă© uma condição hereditária potencialmente grave, mas com rastreio precoce e cirurgia preventiva, o risco de câncer pode ser muitĂssimo reduzido.
- Familiares próximos devem realizar teste genético e colonoscopias, iniciando por volta dos 10 anos.
- Cirurgia entre 16–20 anos Ă© comum, enquanto o acompanhamento contĂnuo inclui exames do intestino, estĂ´mago e duodeno.
Se você tem história familiar de muitos pólipos ou câncer intestinal precoce, marque uma consulta! O diagnóstico certeiro pode salvar vidas — e permitir uma vida plena com qualidade.