Síndromes de Polipose Intestinal: guia prático para quem busca respostas
Existem síndromes genéticas raras que causam múltiplos pólipos no intestino e aumentam o risco de câncer colorretal (e, em alguns casos, outros cânceres). O diagnóstico correto orienta uma vigilância endoscópica e genética que previne câncer e protege a família. Esta área da Oncogenética tem apresentado avanços cada vez maiores com a melhora dos painéis genéticos e, por este motivo, muitas novas entidades têm sido descobertas.
Conceitos importantes-
1- Pólipo: projeção anormal da mucosa que cresce para dentro da luz do órgão (como intestino ou estômago). Ele pode ter diferentes formatos (achatado, pediculado, séssil) e composições histológicas.
2- Hamartoma: lesão benigna formada por tecidos normais do órgão, mas organizados de forma desordenada.
3- Adenoma hiperplásico: Apesar do nome, não é um adenoma verdadeiro. É um tipo de pólipo hiperplásico, formado por proliferação exagerada de células normais da mucosa, sem displasia. Baixo risco de câncer quando isolado.
4- Adenoma displásico: pólipo adenomatoso com displasia epitelial (alterações celulares pré-cancerosas). Classificado em baixo grau ou alto grau de displasia.
5- Pólipo juvenil: hamartoma típico da Polipose Juvenil, formado por tecido normal desorganizado, com glândulas dilatadas e estroma inflamatório.
6- Pólipo serrilhado: lesão da mucosa intestinal com um padrão microscópico característico- as glândulas apresentam dentes ou serrilhas
Não falaremos hoje da Polipose Adenomatosa Familiar, cujo post anterior cobre com mais detalhes.
Veja o guia abaixo das causas:
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1) Polipose Associada ao MUTYH (MAP)
O que é
A MAP é uma polipose autossômica recessiva: precisa de duas variantes patogênicas no gene MUTYH. O quadro costuma ter de dezenas a menos de 100 pólipos (adenomas) no cólon e risco elevado de câncer colorretal; há também adenomas duodenais frequentes. Pólipos serrilhados e hiperplásicos podem coexistir.
Sinais de alerta
- Vários adenomas antes dos 50 anos
- Câncer colorretal em quem não tem traço típico de FAP
- Poucos irmãos afetados ou até história familiar frustra (padrão recessivo)
Vigilância e manejo
- Colonoscopia seriada com polipectomia; cirurgia (colectomia subtotal) quando a remoção endoscópica não consegue retirar todos
- Endoscopia alta para rastrear duodeno.
2) Síndrome de Peutz‑Jeghers (SPJe)
O que é
Condição autossômica dominante por variantes no gene STK11, com pólipos hamartomatosos no intestino delgado e manchas escuras na pele/mucosas (lábios, boca, dedos). Eleva o risco de vários cânceres (colorretal, gástrico, pancreático, mama, ovário).
Vigilância
Endoscopia e colonoscopia periódicas; avaliação de pâncreas e outros órgãos conforme idade/risco.
Teremos um post próprio para SPJe em breve, com calendário de rastreamento e sinais de complicação (sangramento, intussuscepção).
3) Síndrome de Polipose Juvenil (SPJu)
O que é
Polipose hamartomatosa autossômica dominante por variantes em SMAD4 ou BMPR1A (via TGF‑β). “Juvenil” descreve o tipo histológico do pólipo, não a idade do paciente. O risco de câncer colorretal pode chegar a 10–50% ao longo da vida; o câncer gástrico aumenta sobretudo em portadores de SMAD4.
Diferenciais importantes
- SMAD4: associação com telangiectasia hemorrágica hereditária (THH) e maior carga gástrica; atenção a malformações vasculares e aortopatias.
- BMPR1A: risco colorretal existe; início de colonoscopia típico aos 15 anos, intervalos de 1–3 anos conforme achados. Quadro clínico mais grave.
Vigilância
- Colonoscopia a partir da adolescência, 1–3 anos.
- Endoscopia alta a partir dos 25 anos (ou antes se sintomas), 1–3 anos.
- Teste genético e rastreamento familiar.
4) Síndrome de Cowden / Síndrome de Tumor-Hamartoma relacionada ao PTEN (PHTS)
O que é
Conjunto de síndromes por variantes no PTEN (ex.: Cowden, BRRS) ou outros genes. Há hamartomas em pele e mucosas, macrocefalia e risco aumentado para câncer de mama, tireoide, endométrio — e também colorretal (polipose GI em até 90% dos casos).
Sinais de alerta
Lesões cutâneas típicas (triquilemomas, papilomas orais), história familiar de câncer de mama/endométrio/tireoide jovem, pólipos GI múltiplos.
Vigilância
Calendários específicos por órgão (mama, tireoide, endométrio, cólon); organização em centros com experiência em PHTS.
Teremos um post sobre Síndrome de Cowden em breve.
5) Síndrome de Polipose Mista Hereditária (HMPS) por GREM1
O que é
Polipose mista (adenomas, hiperplásicos e juvenis) por duplicações regulatórias upstream de GREM1 que aumentam sua expressão (via BMP). Inicialmente descrita em judeus Ashkenazis, hoje já reconhecida em outras origens; herança autossômica dominante.
O que observar
- Padrão histológico misto no mesmo paciente/família.
- Duplicações de tamanhos variados além da clássica de 40kb
Vigilância
Colonoscopia com remoção completa; considerar cirurgia se falha da terapia endoscópica.
6) Síndrome de Polipose serrilhada (SPS)
O que é
Múltiplas lesões serrilhadas e risco elevado de câncer colorretal. Em uma minoria dos casos há variantes germinativas em RNF43 (inibidor da via Wnt). A penetrância parece baixa e variável, e RNF43 pode não explicar muitos casos.
Pontos práticos
- Critérios diagnósticos OMS 2019 (ex.: ≥5 serrilhados proximais >5 mm, com pelo menos 2 deles com ≥10 mm; ou ≥20 ao longo do cólon, com pelo menos 5 deles em posição proximal).
- RNF43 germinativo é raro; mutações somáticas em RNF43 ocorrem em lesões serrilhadas e em tumores com instabilidade de microssatélites, sem especificidade para SPS.
Vigilância
Colonoscopias frequentes e polipectomia completa; cirurgia se controle endoscópico não é possível.
7) Síndrome de Tumor associada ao NTHL1
O que é
Condição autossômica recessiva por variantes bialélicas em NTHL1 (reparo base excision). Apresenta polipose colônica (adenomas, hiperplásicos e/ou serrilhados) e amplo espectro tumoral: colorretal, mama, endométrio, urotelial, SNC (meningiomas), entre outros. A idade média do primeiro câncer fica em torno dos 40–50 anos.
Marcas diagnósticas emergentes
- Assinatura mutacional SBS30 em tumores pode indicar deficiência em NTHL1.
Vigilância
- Colonoscopia a cada 2 anos a partir dos 18–20;
- Endoscopia alta (com visão lateral do duodeno) a cada 5 anos desde os 25;
- Rastreamento mama/endométrio conforme protocolos (ex.: RM anual 30–60 anos; mamografia anual 40–50 e semestral 50–75).
8) Polipose de genótipo não‑esclarecido
O que é
Uma parcela dos pacientes com fenótipo de polipose não apresenta variantes em genes clássicos (APC, MUTYH, SMAD4, BMPR1A, STK11, PTEN, etc.). Nesses casos, usam‑se painéis ampliados e avaliação clínica para definir intervalos de colonoscopia, endoscopia alta, e rastreamento familiar, enquanto o diagnóstico molecular segue em investigação.
Por que importa
- Evita atrasos em prevenção enquanto o teste genético evolui (lembre-se, Oncogenética é um campo em construção constante).
- Mantém a família protegida com critérios clínicos e histológicos.
Quando desconfiar de uma síndrome de polipose?
- ≥10 pólipos ao longo da vida, especialmente se variados (adenomas + hiperplásicos/serrilhados/juvenis).
- Câncer colorretal em idade jovem (≤50 anos) ou tumores múltiplos.
- História familiar de pólipos/câncer intestinal precoce.
- Lesões cutâneas/mucosas específicas (Cowden/PTEN) ou lentiginose perioral (SPJe).
Como é feito o diagnóstico e o acompanhamento?
- Endoscopia (colonoscopia +, quando indicado, endoscopia alta) para contar e retirar pólipos relevantes. Em vários cenários, a remoção endoscópica previne o câncer; indica-se cirurgia se o controle não é possível.
- Teste genético com painel amplo (APC/MUTYH/SMAD4/BMPR1A/STK11/PTEN/GREM1/RNF43/NTHL1, entre outros), incluindo duplicações/deleções regulatórias
- Rastreamento familiar conforme o gene, padrão de herança (dominante vs. recessivo) e história familiar.
- Calendários de vigilância por órgão (cólon, duodeno, mama, endométrio, tireoide) ajustados ao genótipo e ao fenótipo.
O que você pode fazer agora
Se você tem múltiplos pólipos, diagnóstico de câncer em idade jovem, ou história familiar sugestiva, agende uma consulta comigo. Vamos:
- revisar seus laudos endoscópicos e histológicos;
- indicar o painel genético adequado;
- montar um plano de vigilância personalizado para você e, quando cabível, seus familiares.
➡️ Agende sua avaliação e dê o primeiro passo para um acompanhamento preciso e preventivo.